terça-feira, 28 de julho de 2009

O Homem que se faz a si próprio

O Instituto Borges de Artes e Ofícios (IBAO) .

O legado Joaquim Borges e o “Lyceu de Itu”
Jonas Soares de Souza
Joaquim Bernardo Borges nasceu no início da segunda metade do século XIX em Vila Marin, Concelho de Mesão Frio, em Trás-os-Montes, nordeste de Portugal.
Com 15 anos de idade vem ao Brasil, para tentar “fazer fortuna”. A sua história de vida certamente é próxima àquela do médico e escritor português Miguel Torga, também natural de Trás-os-montes, contada no livro A criação do mundo (Coimbra, 1937):
“Numa madrugada de outubro, meu pai acordou-me.
- Filho, ergue-te, que são horas. Já vem a romper o dia.
Era a minha partida para o Brasil...
Meu pai acompanhou-me ao comboio. Na Vila fomos primeiro a uma tasca comer uma malga de tripas cada um, e, a seguir, dirigimo-nos para a estação ao encontro do senhor Gomes, que apareceu mesmo à hora da partida.
- Aqui entrego-lhe o pequeno. Faça por ele o que puder, que eu, apesar de pobre, lho agradecerei um dia. E tu, já sabes: o mundo é dos homens!
Sabia e não sabia, ao mesmo tempo. Mas fiz de conta que sim.
E, para mostrar que ia cheio de ânimo, disposto a lutar e vencer, subi para a carruagem como se nada fosse.
Eu próprio estava admirado da minha serenidade, quer à despedida em casa, quer ali. Mas apenas o comboio se pôs em andamento, e meu Pai foi ficando cada vez mais longe, lavado em lágrimas na gare, cegaram-se-me subitamente os olhos e chorei desesperadamente.
Da ponte sobre o Douro, no Porto, olhei a cidade onde vivera pela primeira vez longe do ninho... O comboio, frenético, avançava sempre. E eu, resignado no meu lugar, a vê-lo correr. Que remédio. Ia despachado para o desconhecido, e nada podia fazer”.
Borges desembarcou em Santos. Logo depois se dirigiu a Itu, onde começou a trabalhar na “loja de fazendas” de João Batista de Macedo, estabelecida na antiga rua Direita, hoje Paula Souza. Depois foi caixeiro da casa comercial de Manoel Joaquim Antunes Russo, onde se tornou funcionário exemplar e respeitado. Nessa época, a Guerra da Secessão americana desorganizou a lavoura de algodão do sul dos Estados Unidos, justamente quando aumentava a demanda do produto na Europa. Esses fatores conjunturais contribuíram para o desenvolvimento da lavoura do algodão no Brasil. Na província de São Paulo, as regiões próximas a Itu (Sorocaba e Porto Feliz) também ampliaram suas lavouras de algodão. Agora, além da demanda das fábricas locais (em Itu, Salto e Sorocaba), era possível multiplicar os ganhos com a exportação.
Manoel Russo passou para Joaquim Bernardo Borges a incumbência de comprar algodão em Porto Feliz. Borges conseguiu fazer tão bons negócios que, além de satisfazer plenamente as expectativas do patrão, teve e não desperdiçou a oportunidade de iniciar a formação do seu pecúlio. Quando o patrão morreu, Borges já tinha cabedal suficiente para montar o próprio negócio. Na rua do Comércio abriu uma promissora casa de comissões e consignações, especializada na compra e venda de algodão e chá. Era o início de uma fortuna, pouco a pouco acumulada, com “tino comercial” fora do comum e dedicação ao trabalho à moda de um “mouro”, como ainda se diz em Trás-os-montes. Em 1875 Borges fechou sua casa comercial em Itu e mudou-se para a capital da província. Em São Paulo, investiu sua fortuna em negócios imobiliários e investimentos nas casas bancárias, que então ganhava franco desenvolvimento com a euforia dos negócios gerados pela economia do café. Logo depois, regressou a Portugal, para viver na cidade do Porto, não muito longe do Conselho de Mesão Frio. Pouco tempo antes de morrer, fez o seu testamento. Datado da cidade do Porto, em 10 de novembro de 1920, o testamento destinava à Santa Casa de Misericórdia de Itu o legado de 4.455:024$000, constante de apólices e prédios localizados em São Paulo, “com a condição de fundar e administrar perpetuamente na cidade de Itu uma instituição que se denominará Instituto Borges de Artes e Ofícios e uma Maternidade”. Borges, como homem sensível às questões sociais e econômicas do seu tempo, devia conhecer de perto a trajetória da Santa Casa de Misericórdia de Itu. Ele viveu na cidade no período de consolidação da instituição, fundada em 1840 com o pecúlio de dois contos de réis deixado por Caetano José Portela. Quando em março de 1846 D. Pedro II visitou Itu e soube do empreendimento, o imperador também fez questão de deixar um donativo de três contos de réis. O historiador Francisco Nardy Filho lembra que foram proféticas as palavras de Cândido José da Mota na Câmara de Vereadores, quando propôs a fundação da Santa Casa: “estou convencido de que a generosidade do povo ituano virá em auxílio desta benemérita fundação”.
Borges morreu no Porto a 2 de janeiro de 1921. O provedor da irmandade da Santa Casa, José de Paula Leite de Barros, diria na homenagem ao máximo benfeitor de Itu: “Sua biografia, a história de sua modesta vida durante o tempo em que viveu nesta terra, que ele amava como a de seu nascimento, é curta e muito simples, como simples tem sido a vida do homem do trabalho em toda a parte, daquele que pelo próprio esforço consegue fazer sua independência, como na expressão americana – the self made man – o homem que se faz a si próprio, como é o caso de Joaquim Bernardo Borges. Na verdade, verdade, Borges se fez a si próprio. Quase criança chegou a Itu, não conhece a ninguém, ninguém o conhece. Como apresentação, traz apenas uma carta de um patrício de Santos ao Sr. Macedo, que desejava um empregado ativo e trabalhador. Emprega-se no comércio e, com trabalho e denodo, faz fortuna. Pelo caráter, pela sua honestidade, lealdade e bondade, conquista estima e consideração. Senhor de muitos haveres, ao sentir saudades dos seus, aplica com eficiência o seu capital, e volta a Portugal. Algumas décadas depois, próximo do fim da vida, prova que não se esquecera do Brasil e de Itu, a origem dos seus cabedais”.
De posse do legado, a cidade cumpriu a vontade do benfeitor. A Irmandade contratou os serviços de um dos melhores escritórios de engenharia e arquitetura existentes em São Paulo, o Escritório Técnico Ramos de Azevedo, para a fatura da planta do edifício que abrigaria o Instituto dos sonhos do caixeiro-viajante Borges. Ramos de Azevedo concluíra milhares de obras e dominava o panorama das edificações que remodelaram a capital paulista nas duas primeiras décadas do século XX. A historiadora da arquitetura Maria Cristina Wolff de Carvalho sintetizou muito bem a sua importância: “Pela tenacidade e ousadia de seu espírito empreendedor, Ramos de Azevedo foi o responsável por um legado arquitetônico cujo significado transcende o aspecto imediato dos seus edifícios”. Ramos de Azevedo também tinha um profundo relacionamento com o Liceu de Artes e Ofícios. Quando instalou o Escritório Técnico em São Paulo em 1886, ele chamou para auxiliá-lo o arquiteto Domiziano Rossi. Não descuidou de convocar também outros profissionais, todos italianos, como desenhistas, mestres-de-obras, serralheiros, pintores, pedreiros, decoradores e educadores. Com esses profissionais e artesãos de primeira linha, Ramos de Azevedo reformulou a Sociedade Propagadora de Instrução Popular transformando-a no Liceu de Artes e Ofícios, instituição que durante muitas décadas ditou as regras sobre o que era bom ou ruim na arquitetura e no mobiliário em geral. Os professores do Liceu criaram uma sólida reputação de honestidade na escolha de materiais, de perfeccionismo na confecção e acabamento dos produtos e de seriedade no ensino das artes e ofícios. Os edifícios ou as casas da classe média paulistana ganhavam uma certa “aura” de importância se incorporassem produtos do Liceu: grades, gradis, portas, portões, janelas, lambris, móveis, estofados,artefatos de serralheria artística etc. É oportuno lembrar que Ramos de Azevedo, em parceria com Paula Souza, já tinha participado da reforma da fachada da Igreja Matriz de Itu e que ele pertencia à Irmandade da Santa Casa de São Paulo. Por outro lado, Ramos de Azevedo projetou outras instituições educacionais como a Escola Normal de São Paulo e o Liceu de Artes e Ofícios de Campinas.
Em 1921 José de Paula Leite de Barros procurou Ramos de Azevedo para tratar do projeto do “Lyceu de Itu”. Ele mesmo narrou o encontro com o arquiteto famoso: “O Dr. Ramos de Azevedo recebeu-me com sua reconhecida simplicidade de maneiras, e depois de inteirar-se do motivo que me levava à sua presença, com aquele sorriso que lhe é peculiar, respondeu-me: Um pedido da Irmandade da Misericórdia de Itu é para mim mais que uma ordem, tanto mais que se trata de satisfazer a vontade de um benemérito, e que vem cooperar para o progresso do meu adorado São Paulo”. A Mesa Administrativa fez os procedimentos para a aquisição do terreno, escolhendo-se o de propriedade de Ângelo Bordini, situado no antigo Largo da Caixa D’Água, hoje Praça Conde de Parnaíba. O imóvel, do tamanho de um quarteirão inteiro, custou 32:013$000. O zeloso provedor, ansioso por ver o edifício levantar-se do chão, cumpriu rigorosamente a determinação do testamento: o Instituto devia ser construído com os rendimentos que produzisse o valioso legado durante três anos. O legador preocupou-se em manter o principal do legado. Ao cair em mãos competentes, o legado materializou-se numa instituição modelar em pouco tempo: o Instituto Borges de Artes e Ofícios, conhecido como “Lyceu de Itu”. A construção coube aos engenheiros-arquitetos Geribello e Quevedo.
A 28 de outubro de 1924 inaugurou-se com pompa e circunstância o Instituto Borges de Artes e Ofícios da cidade de Itu. No antigo vazio do Largo da Caixa D’Água agora se via uma elegante massa arquitetônica. Cumprindo a vontade expressa do benfeitor máximo, a Irmandade da Santa Casa ordenou também a construção do edifício da Maternidade. A planta, de autoria do engenheiro arquiteto José Maria da Silva Neves, foi executada sob fiscalização do engenheiro Sérvulo Pacheco e Silva. No ano da inauguração da Maternidade Borges o patrimônio total da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Itu era de 6.492:839$803. Desse total, o patrimônio do Instituto Borges respondia pela importância de 5:237:912$623. O belo edifício da Maternidade construído ao lado da Santa Casa foi inaugurado a 12 de março de 1939 em cerimônia presidida pelo provedor Pedro de Paula Leite, na presença do Senhor Interventor do Estado, Ademar de Barros.

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